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Comer muito rápido pode estar por trás do seu desconforto digestivo.

há 23 minutos
4 min de leitura

Você termina uma refeição e, pouco tempo depois, sente a barriga estufada, pressão no abdômen, arrotos frequentes ou aquela sensação desagradável de ter comido mais do que precisava. Embora esses sintomas possam ter diferentes causas, um hábito cotidiano merece atenção: a velocidade com que você come.

Em uma rotina marcada por reuniões, prazos, intervalos curtos e refeições feitas diante de telas, comer depressa tornou-se comum. O problema é que a digestão não depende apenas do que colocamos no prato, mas também de como nos alimentamos.

A maneira como comemos influencia a quantidade de ar que engolimos, a percepção de saciedade e o trabalho realizado pelo sistema digestivo. Entender essa relação pode ajudar a identificar hábitos que contribuem para o desconforto após as refeições.


O que acontece com o organismo quando comemos depressa?

A digestão começa antes mesmo de o alimento chegar ao estômago. Ao perceber o alimento, sentir seu cheiro e iniciar a mastigação, o organismo começa a se preparar para receber e processar os nutrientes.

A mastigação fragmenta os alimentos em partículas menores e os mistura à saliva, que contém enzimas responsáveis por iniciar a digestão de alguns nutrientes, especialmente os carboidratos. Em seguida, o alimento passa pelo esôfago até chegar ao estômago, onde continua sendo misturado e processado.

Quando comemos muito rápido, encurtamos o tempo dedicado à mastigação e podemos engolir porções maiores de alimento. Isso não significa que o estômago seja incapaz de digerir esses alimentos, mas pode alterar a dinâmica da refeição e favorecer alguns sintomas, principalmente em pessoas predispostas.

Além disso, a velocidade da alimentação interfere na comunicação entre o sistema digestivo e o cérebro, que participa da regulação da fome e da saciedade.


Estufamento abdominal e excesso de gases.

Uma das consequências mais perceptíveis de comer depressa é a sensação de distensão abdominal, popularmente descrita como barriga estufada.

Durante refeições apressadas, especialmente quando falamos enquanto comemos, bebemos rapidamente ou ingerimos bebidas gaseificadas, podemos engolir mais ar. Esse fenômeno é chamado de aerofagia e pode contribuir para arrotos, sensação de pressão e desconforto abdominal.

É importante fazer uma distinção: nem todo gás intestinal vem do ar engolido. Uma parte significativa é produzida pela fermentação de carboidratos por bactérias presentes no intestino grosso. Por isso, o estufamento também pode estar relacionado aos alimentos consumidos, à constipação, à intolerância a determinados componentes alimentares ou a alterações na interação entre o intestino e o cérebro. Comer mais devagar pode ajudar a reduzir a ingestão de ar e melhorar o conforto durante as refeições, mas não elimina necessariamente todas as causas dos gases.


Sensação de estômago cheio mesmo após uma refeição habitual

Outro efeito possível é a saciedade desconfortável: aquela sensação de que o estômago está excessivamente cheio, mesmo quando a quantidade ingerida não parece tão grande. O estômago possui mecanismos que permitem acomodar os alimentos à medida que comemos. Ao mesmo tempo, receptores do trato digestivo e sinais hormonais enviam informações ao cérebro sobre a ingestão e a saciedade. Esses sinais não são percebidos instantaneamente. Quando a pessoa come em ritmo acelerado, pode consumir uma quantidade maior de alimentos antes de reconhecer que já está satisfeita. O resultado pode ser uma refeição maior do que o necessário, seguida de peso abdominal e desconforto. Em pessoas com dispepsia funcional, por exemplo, a sensação de plenitude após comer pode ser mais intensa. Nesses casos, a relação entre o estômago e o sistema nervoso pode estar alterada, fazendo com que uma quantidade habitual de alimento provoque sintomas significativos. O ponto central não é comer o mínimo possível, mas reconhecer a saciedade antes que ela se transforme em desconforto.


Má digestão, náusea e desconforto na parte superior do abdômen

A expressão “má digestão” costuma reunir sintomas diferentes, como sensação de peso, dor ou queimação na parte superior do abdômen, náusea, arrotos e saciedade precoce. Comer depressa pode contribuir para esse quadro, sobretudo quando favorece refeições volumosas e a ingestão de ar. A mastigação também tem um papel importante: ela reduz o tamanho das partículas alimentares e facilita a mistura dos alimentos com a saliva. Isso não significa, porém, que mastigar pouco impeça o organismo de absorver os nutrientes ou que o estômago deixe de funcionar adequadamente. A digestão envolve processos mecânicos e químicos que continuam acontecendo ao longo do trato gastrointestinal. O que merece atenção é a repetição dos sintomas. Se a sensação de estômago cheio, a dor ou a náusea aparecem frequentemente, não é adequado atribuir tudo à velocidade da alimentação. Refluxo gastroesofágico, dispepsia funcional, úlceras, efeitos de medicamentos e outras condições podem produzir manifestações semelhantes.


Comer rápido também pode favorecer episódios de refluxo?

A relação entre velocidade alimentar e refluxo merece uma explicação cuidadosa. O refluxo gastroesofágico acontece quando o conteúdo do estômago retorna ao esôfago, podendo provocar azia, regurgitação e outros sintomas. Refeições volumosas podem favorecer o refluxo em algumas pessoas, e comer depressa pode facilitar o consumo de uma quantidade maior antes que a saciedade seja percebida. Entretanto, comer rápido não é, isoladamente, uma causa comprovada de doença do refluxo gastroesofágico. O problema depende de diferentes fatores, incluindo o funcionamento da barreira entre o esôfago e o estômago, o volume das refeições e características individuais. Para quem apresenta sintomas após comer, vale observar se refeições menores, feitas com mais calma, ajudam. Permanecer sentado ou em pé após a refeição e evitar deitar-se logo depois também pode ser útil, especialmente para quem tem refluxo.


A relação entre velocidade alimentar e saúde metabólica

Os efeitos de comer depressa não se limitam ao desconforto digestivo. Estudos observacionais têm associado a alimentação rápida a uma maior tendência ao consumo excessivo de alimentos e a alguns indicadores desfavoráveis de saúde metabólica. Uma explicação possível é que o ritmo acelerado dificulte perceber a saciedade antes de continuar comendo. É importante, contudo, diferenciar associação de causa. Esses estudos não demonstram que comer rápido, sozinho, provoque ganho de peso, diabetes ou outras doenças metabólicas. O estado de saúde também é influenciado pela composição da alimentação, atividade física, sono, genética, medicamentos e contexto social. Ainda assim, desacelerar as refeições pode ser uma estratégia prática para melhorar a percepção da saciedade e reduzir o desconforto associado a refeições excessivas.


Como aprender a comer mais devagar na prática?

Não é necessário contar cada mastigação ou transformar a refeição em uma tarefa rígida. O objetivo é criar condições para comer com mais atenção e perceber os sinais do organismo.


 
 
 

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©2022 por Dr. Gustavo Drügg Hahn Gastroenterologista e Endoscopista Digestivo CRM-RS 39622  RQE 35055 e 36156

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